Vício em jogos: por que a aposta deixa de ser diversão

A aposta que começou como diversão foi tomando um espaço que não tinha antes, na sua vida ou na de alguém que você ama. E fica a dúvida: isso já é vício em jogos, ou ainda é diversão?
Quais são os sintomas do vício em jogos?
Na clínica, quando deixa de ser diversão e a pessoa perde o controle sobre os jogos, os sintomas frequentes são de muito sofrimento e dor: ansiedade, depressão, culpa, isolamento social, medo das consequências do endividamento, vergonha, mentiras e a evitação de pessoas próximas para fugir das críticas ou cobranças.
A Associação Americana de Psiquiatria descreve o vício em apostas por estes sinais: pensar o tempo todo em apostas, relembrando as passadas ou planejando as próximas; precisar apostar quantias cada vez maiores para sentir a mesma excitação; tentar controlar, diminuir ou parar, várias vezes, sem conseguir; ficar inquieto ou irritado ao tentar diminuir ou parar; jogar para escapar de problemas, do estresse ou de alguma angústia; depois de perder, voltar a apostar para empatar ou recuperar o que perdeu, perseguindo as perdas; mentir para esconder o quanto está envolvido com o jogo; perder oportunidades importantes na vida pessoal e profissional por causa do jogo; e contar com outras pessoas para resolver os problemas financeiros que o jogo causou. Qualquer um deles já é motivo para procurar uma avaliação.
O nome que a psiquiatria dá a esse quadro hoje é transtorno do jogo. Antes, o nome usado era jogo patológico.
Quando a aposta deixa de ser diversão
A bet deixa de ser diversão quando passa a comprometer a vida da pessoa como um todo: seus pensamentos, atenção, energia, sua rotina, sono, família, amizades, o trabalho. Todas as áreas da existência ficam cada vez menos investidas de atenção e afeto.
O indivíduo não se dá conta do tempo que passa conectado ao aplicativo e desconectado da vida. A lógica por trás dos jogos é oferecer prazer, recompensa, distrair o indivíduo, e isso é feito de modo fantástico, divertido e muito atraente, mas o preço é alto para a saúde mental e o bolso. Na maioria dos casos, o jogo só é visto como problema quando ocorre o endividamento, a perda do trabalho, de algum relacionamento significativo ou algum sintoma psicológico insuportável.
Por que o vício em bets vem pegando tanta gente
É um tema complexo; existe uma série de variáveis que podem ser determinantes para desenvolver vícios. No caso das bets, é necessário primeiro olhar para o ambiente virtual em que vivemos. O celular e o computador estão ligados ao nosso trabalho e ao lazer. Empresas oferecem serviços gratuitos e, em troca, coletam dados do usuário e suas preferências de pesquisa. Isso aprimora as estratégias de marketing, que criam ambientes virtuais com estímulos sensoriais que despertam o desejo humano e prendem a atenção de modo viciante, com o produto a um clique de distância. Por trás dessas estratégias estão grandes estudos sobre o funcionamento psíquico e o comportamento humano.
Como o cérebro se acostuma ao jogo
Os atos repetitivos, seja jogar ou consumir, geram picos artificiais de prazer, porque produzem mais dopamina no cérebro, mas é um mecanismo ineficaz. Com o passar do tempo o cérebro se acostuma a esse prazer, e a pessoa precisa buscar compulsivamente mais jogo para ter a mesma experiência. Quando não está envolvida nesse ato, sofre com sintomas físicos e psicológicos, o que é chamado de abstinência.
Duas teorias explicam esse mecanismo. Pela teoria da sensibilização por incentivo, de Robinson e Berridge, com o tempo a pessoa passa a querer compulsivamente o comportamento, mesmo sem sentir mais prazer com ele. Pela teoria da tolerância, o cérebro tenta se proteger do excesso de dopamina reduzindo seus receptores; por isso precisa de mais para ter o mesmo efeito, caso fique sem a substância ou jogo, sofre e entra em abstinência. No jogo, essa abstinência aparece como inquietação e irritabilidade.
A dor por trás do vício
Existem as feridas emocionais, que a pessoa nunca parou para olhar e cuidar. Nenhuma pessoa nasce para o vício; as pessoas se tornam viciadas na busca por aliviar o vazio, o desprazer, a solidão, as dificuldades pessoais e financeiras ou a perda de sentido na própria vida.
Gabor Maté explica que a criança precisa, ao mesmo tempo, estar ligada a quem cuida dela (apego) e ligada ao que sente (autenticidade). Quando precisa deixar de lado as próprias necessidades para não perder o adulto, ela se desconecta de si; isso gera um vazio profundo que busca ser preenchido mais tarde. O vício é o mecanismo que traz alívio para essa angústia e vazio, enquanto a pessoa é destruída por ele. Por isso a pergunta que ele propõe não é “por que o vício?”, mas “por que a dor?”.
Numa perspectiva biopsicossocial, a causa do vício é sempre uma combinação de fatores genéticos, psicológicos e sociais.
Como a Gestalt-terapia entende o vício em jogos
Para a Gestalt-terapia, o vício em jogos é percebido como um modo de ser no mundo com o qual a pessoa está tentando lidar com a dor, a existência e o sofrimento. E ao mesmo tempo, o vício rompe com o tempo: a pessoa fica horas jogando, enquanto o relógio aponta para a vida no agora e para as possibilidades do futuro. O espaço e o mundo que a pessoa ocupa se reduzem ao mundo virtual das apostas; é ali que ela se sente incluída e anestesiada contra o mundo real. Os jogos se tornam um lugar de fuga dos conflitos e das frustrações diante da angústia.
O que parece uma escolha livre aos poucos retira a autonomia e a autenticidade. Pela compulsão, a pessoa perde o controle do jogo e da própria vida, porque é o jogo que passa a controlar sua existência. A pessoa perde a liberdade de escolha.
Para Heidegger, o indivíduo é um ser sempre em relação com as coisas e com os outros. Quando o espaço da pessoa se restringe à realidade virtual, ele se desconecta das atividades com a família, os amigos, os parceiros e com o próprio corpo, que passa a ser negligenciado.
Com o passar do tempo se instalam a culpa existencial e a vergonha, que vão aprisionando a pessoa pelas mentiras, dívidas ou pelo abandono da família. E quanto mais remorso, maior a tendência de que ele vire um novo gatilho para se manter no vício do jogo.
Nosso papel como psicólogos é acolher e acompanhar a experiência do paciente, ajudá-lo a descrever essa história e buscar compreender o que o jogo está comunicando e representando. E, desse modo, recuperar sua autenticidade e sua liberdade de escolha.
Como a família pode ajudar
Dificilmente o jogador se dá conta do problema que está vivendo. Apesar dos sintomas e das consequências, são as pessoas próximas que percebem a mudança de comportamento. O mais indicado é conversar abertamente sobre o que está acontecendo, sem críticas ou julgamentos, e oferecer ajuda, para estar com a pessoa nesse momento. Conforme a situação, será necessária avaliação médica, psiquiátrica e psicológica para tratar os sintomas e as crises de abstinência.
Vício em jogo tem cura?
Todo vício tem tratamento. No caso da dependência em jogos on-line, especialmente em apostas, ela causa danos muito rápido na saúde mental, financeira e social da pessoa, e isso exige cuidado urgente para evitar prejuízos irreversíveis. Procure ajuda: sempre existe uma solução para recuperar sua saúde e sua liberdade.
Sempre existe uma saída, não importa a situação difícil que você esteja vivendo por causa do vício em jogos. Procurar ajuda é o primeiro passo.
Referências
- A psicologia do vício em apostas virtuais: uma perspectiva integrativa e existencial do fenômeno (Brazilian Journal of Health Review)
- MATÉ, Gabor. Vício: o reino dos fantasmas famintos: uma abordagem científica e compassiva sobre a dependência, suas origens e os caminhos para a recuperação. Tradução de Carolina Simmer. Rio de Janeiro: Editora Sextante, 2024.
- Transtorno do jogo: o que acontece no cérebro de pessoas viciadas em bets (BBC News Brasil)
- Dependência em jogos: entendendo as causas e consequências (SPDM)